quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Les cités obscures






quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Chiusi

Cittá della Pieve



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Rieti






Aquila, Set 2009



sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Perugia






quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Perugia by night


Tramonto sul Trasimeno



terça-feira, 22 de setembro de 2009

Napoli











terça-feira, 14 de julho de 2009

O teu nome, a minha liberdade

Quase um mês depois, e passada uma eternidade, chegou finalmente a resposta: podes publicar tudo o que quiseres, dizia. Como é que consegues dedicar tanto tempo a escrever, perguntava.

E eu não-disse que não dormia, que dormia cada vez menos, que já em Lisboa me custava dormir e que agora, em Viena, me custava sequer imaginar aquele sossego que tivera quando Pauly estava comigo na Madragoa. Não-disse que sentia que passara o tempo, que algo se perdera irremediavelmente, que do outro lado do rio já não conseguia ver o futuro óbvio, não-disse que, por assim não-dizer, estava sempre neblina ultimamente na minha vida.

Em Lisboa, é certo, esperava-me, para lá da cascata de telhados, o rio cúmplice e cheio de promessas, mas já sem o olhar de Pauly pousado sobre ele – Pauly e os seus infinitos cigarros, que pareciam demorar décadas cada um, séculos, se caía a noite…

Nesse verão qualquer coisa se quebrou inelutavelmente e aquela promessa parece agora ter só a consistência dos apitos dos barcos no nevoeiro, lá em baixo, nos dias em que só o seu som nos garantia que algo se movia na imensidão de brancura aos pés da colina.

“Podes, podes publicar o que quiseres”, respondeu Pauly, e eu comecei a publicar os drafts que coleccionara naquele mês de eternidade. Achara um pouco estrangeiro, parece, ver assim o seu nome escrito por outro alguém, nunca pensara em si como personagem de outra prosa que não fosse a sua, dizia, mas podes, podes publicar o que quiseres, dizia, “afinal é o meu nome mas a tua liberdade”.

Nunca imaginara, nem concebia, ver os seus diários publicados, mas os meus não fazia mal – quando alguém diz outro alguém diz mais de si do que daquele sobre quem escreve, era isso que imagino que me queria dizer quando me escreve que era só o seu nome (and what’s in a name…?).

Pauly regressara ao México, às ininterruptas chuvas, e mergulhara no trabalho ainda com os olhos cheios de rio. Eu vi-me exilada em Viena, prisioneira de um futuro que nunca chegou. Com a bagagem às costas, vi Viena perder uns vinte graus de temperatura numa só semana - a meteorologia, como sempre, parecendo querer dizer-nos alguma coisa…

A Viena que encontrei era uma cidade desolada e neutra, onde eu procurava refúgio na espuma das mélanges e escrevia pela noite dentro como se isso me livrasse do dia seguinte. Que sempre chegava, sem surpresa nem redenção. Todas as noites um restaurante diferente, e todas as noites um suspiro diferente me habitava a garganta, perante a indiferença dos presentes, cada vez mais longínquos naquela jangada que habitavam e na qual esperavam atingir grandiosas metas, para mim transparentes e permeáveis, como se não só a luz mas o que quer que fosse pudesse passar através delas.

À noite, na estação, à espera do comboio - o frio, que entretanto chegara, a querer dizer-me que estava tudo demasiado errado, que era chegada a hora de escolher outro caminho. “Para onde?”, perguntava-me. Tudo fechado em redor. No distante quarto de hotel, os meus livros passavam sozinhos os seus dias, regredindo para um tempo anterior – ou posterior, quem sabe, mas certamente não presente – e eu procurava refúgio nos misteriosos teclados estrangeiros que se me deparavam. De café em café, tudo me era estrangeiro, e não havia espuma que me cobrisse aquele vazio.

Mais tarde, na Madragoa, entre os telhados, contemplaria estupefacta a simultânea ausência de Pauly e de um futuro que, umas semanas antes, parecia estar ao virar da esquina. Movimentava-me, ainda incrédula e desprevenida, por entre as memórias cada vez mais difusas de algo que a mim me parecia real e naquele presente de névoa cujo fim não parecia definido. Atravessei a vau aquele verão feito de promessas por cumprir, para depois desembocar num outono doloroso, árido – todo ele espera, todo ele compasso, compaixão, padecer…

“Pauly está a transformar-se numa personagem de romance, um romance com diálogos deliciosos”, diz Jeronimo, do outro lado da cidade, também ele dono do seu próprio telhado, também ele inevitavelmente personagem de um romance por escrever, ainda à espera do seu autor.

“Nunca pensei em mim como personagem doutra prosa que não fosse a minha”, diz Pauly, mas – não somos todos um pouco personagens uns dos outros, personagens de nós mesmos, projecções, invenções, distorções, materializações de esperanças e desejos… de tal modo que tudo o que nos resta, de comum entre o eu que vivemos e o eu que os outros escrevem de nós – o nome?

“O meu nome, a tua liberdade” – podes, podes publicar o que quiseres. “E escreve muito”, acrescentou.