A T E N Ç Ã O - Este blog respeita o acordo ortográfico. Não o cumpre. Mas respeita.

sábado, 13 de dezembro de 2008

IV

-Ena pá, quem me dera ter essas notas todas!! - diz o gajo que entretanto está no lugar do outro, na mesa ao lado, quando vê o molho de notas na mão do Ruben, ao fazer-lhe o troco.
O Ruben estende-lhe o maço:
- Toma, queres?!
Ele agita os braços numa recusa contundente:
- Não quero, não quero! - e depois num tom solene e teatral, muito alto, muito Teatro Nacional - "A César o que é de César!"
Eu já tinha levantado os olhos do que estava a escrever. Aliás, acabara um capítulo. Acho eu. Bom, tinha virado a página e tinha uma página em branco. E tinha levantado os olhos do papel.
- Tu viste! - o Ruben invoca-me como testemunha. - Ele não quis!
Pisco um olho ao Ruben e digo com ar sentido:
- Foi bonito!...
O gajo repete, já entre o Nacional e o Politeama:
- "A César o que é de César!!"
Faço um gesto largo, de um para o outro, se calhar já eu própria a puxar para o Teatro Aberto, e repito, com intenção solene:
- Foi bonito! - e, depois para o Gajo Que Não Queria Ser César - Foi das coisas mais bonitas que já vi.
O Ruben entretanto sai de cena - sempre impecável na marcação - e o Gajo Que Não Queria Ser César continua a falar comigo.
- O que é que estás a beber? Queres beber mais um?
E eu que não, obrigada, deixa estar. E ele, mais uma vez, dramático-grandiloquente:
- "A César o que é de César!!"
E eu rio-me:
- Pá, tá bem! Mas eu não sou o César!
- Mas a sério, o que é que queres beber?
- Eu estava a pensar se bebia mais um moscatel...
- A sério, pá. Vou chamar o Ruben.
Eu ponderava, mas acabo por beber realmente mais um moscatel . À saúde do Ricardo.
- És escritora? - pergunta ele. Digo que sim.
- E publicas?!
- Claro que não. O que é que uma coisa tem a ver com a outra?! Eu sou escritora, escrevo. Se fosse editora, logo publicava.
Ele analisa a problemática. Parece concordar.
- E escreves sobre quê?
- Sobre mim.
- Devaneios da tua cabeça?
- Eu gosto de pensar que é real... Mas, de facto, as minhas amigas dizem que isto é tudo só na minha cabeça...
- Estás a escrever sobre quê?
Ergo para ele o caderno, numa demonstração de boa vontade. Mas sei que há boas hipóteses de ele não perceber uma palavra dos meus hieróglifos. Bom, na verdade há a hipótese de eu não perceber uma palavra dos meus hieróglifos, amanhã. (Escrevo cada vez pior, perdi o hábito de escrever à mão...)
- E tens um blog onde publicas o que escreves?
(A sério, a minha vida não é um filme?! Quem é que me escreve estes diálogos?!)
- Tenho.
- A sério?! Pá, quero ver esse blog...
Rasguei um pedaço do envelope onde trazia as folhas A4 com letras e fórmulas e escrevi o url do planeta. Ele ficou agarrado àquilo o resto da noite como se fosse a chave para alguma coisa. Ele, aliás, parecia procurar uma chave, muito mais que eu.
Começámos a falar de tudo e um par de botas: a felicidade (ele diz que é feliz...). A escrita (escrever porquê, para quê, para quem?). A inspiração (eu digo que a inspiração depende da sensibilidade daquele que se inspira, tem muito pouco a ver com o que o rodeia). O Ruben (que é bom tipo). As parvoíces que um gajo diz quando bebe demais (eu chego a falar latim). Ainda bem que a televisão está apagada (nunca tinha reparado que estava ali uma televisão). O meu avô era do Pico (o dele). Dá cá mais cinco. Estou a aprender. Estás a inspirar-te? Vais escrever sobre isto? Já escrevi. Estou a escrever. Eu não me vou deitar sem ir ver este blog. Força. Onde é que está o teu moscatel? Já o bebi. Queres outro? Não, obrigada. Senão depois já não escreves. É, às tantas não consigo escrever. Não quero estar a importunar-te. Nada, não te preocupes. Não quero distrair-te. A minha cara de importunada é assim (faço cara de importunada). Ele ri-se, tranquilizado.
- Faz-me um favor: sê feliz.
- Eh pá, esse é um favor muita difícil...!
- Não é, é só deixar fluir... Olha: eu estou feliz!
- Mau... há um quarto de hora eras feliz!
Ele ri-se:
- Estar... é ser momentaneamente...
- Isso é profundo! Espera, deixa-me escrever isso...
Outro gajo, de pé, que se vai embora, aperta-lhe a mão:
- Amigo Ricardo ...
- Ela é escritora! - anuncia o Ricardo apontado para mim. Levanto as sobrancelhas. (O que é que eu hei-de dizer?... )
- E publica?
Eu nem preciso de dizer nada. O Ricardo explica-lhe tudo. Não sou publicada mas tenho porta-voz... Isto é que é prestígio!!
- Vai escrever sobre nós - acrescenta. O outro olha para mim, na dúvida. Mantenho as sobrancelhas levantadas. Faço que sim com a cabeça. O outro acena cordialmente. Afasta-se na direcção da porta. Pelo sim pelo não, acrescenta, em voz alta, apontando para si:
- Salvador!
- Salvador - repito eu, acenando também.

2 comentários:

Carla Morais disse...

Que linda cena, esta IV! Aconteceu mesmo? é que até parece inventado, muito bem inventado!

marisa m disse...

Pois, "bem inventado" demais para ser ficção!! A minha vida é um filme, cada vez tenho mais certeza... Só queria saber... QUEM É QUE ME ESCREVE ESTES DIÁLOGOS?! :P