A Anabela diz que não lhe apetece falar nisso. Diz que quando lhe perguntam, ela fala pouco e a custo. “A vocês não vos acontece? Não me apetece falar…”
Eu lembro-me do poema da morte de rimbaud; mas não sei de que é que ela está a falar.
E o mais estranho é que alguns dos outros lhes respondem que sim, que com eles também.
Eu não tenho falado mas isso é porque não falo com ninguém; nem sobre a Índia nem sobre nada.
Não conhecia a Anabela antes de ir com ela para a Índia; vale o que vale, mas a verdade é que em Lisboa lhe noto uma melancolia que nunca lhe notei durante a viagem (e nós partilhávamos o quarto). Sobretudo quando fala nestas coisas, parece-me mais fechada, mais ausente, com uma distância que nunca lhe tinha visto… Acharia que era por eu não a conhecer bem, mas pelos vistos não sou só eu a estranhar… “Não sei, não me apetece dizer muito sobre isso…” Não faço ideia de que é que estão a falar.
Pois a mim não me perguntam o suficiente. Contaria mais vezes a história (ou mais histórias, ainda estou muito longe de esgotar o repertório), mas parece que não tenho a quem. Devo estar a perder qualidades, já ninguém me pede histórias. E os que pedem, também, só perguntam coisas parvas. Querem fotos e postais e incenso e todas essas coisas sublimes que se podem encontrar em todo o lado. Outro dia passei-me e gritei para o Leo: “Eu não fui ao Martim Moniz!!”. Trouxe água do Ganges e cheiros esquisitos na bagagem. Trouxe deuses, bolos estranhos, muitas coisas que fazem barulho e um vazio no peito, porque o mais fácil de ganhar, em toda a parte do mundo, é a Ausência.
Mas disso ninguém quer saber.
Perguntem-me outra vez. Perguntem-me coisas óbvias. “Tiraste muitas fotos?” “A comida é muito picante?” “As pessoas são muito pobres?” “Mas achaste que valeu a pena?”… “Então, a Índia – foi bom?”
Não. Sim. Sim. Claro que sim. Fugir é sempre bom.
sábado, 5 de maio de 2007
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1 comentário:
Então e que tal uma vindazinha cá a casa para contar (finalmente!) tudo sobre essa viagem? Este domingo? Eu ligo-te...
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