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quarta-feira, 9 de maio de 2007

Pastelaria

- Boa tarde. Vinha para falar com o Sr. Soares, por favor.
- Perdão?
- Bernardo Soares. Era para falar com ele. Pode dizer-lhe que estou aqui, por favor?
- Peço desculpa, a Sra. está enganada, com certeza. Não trabalha aqui nenhum Soares.
- Sujeito magrinho, de bigode, óculos redondos?
- Esse é o Sr. Pessoa.
- Pode chamá-lo?
O homem desaparece pela porta.

- Ó Pessoa, está aqui uma senhora que diz que quer falar consigo.
- Comigo?!
- Acho que é consigo, mas chama-lhe Soares.
Pessoa empalidece.
- Chama-se Ophelia?
- Parece que não.
Lentamente, Pessoa pega no chapéu e dirige-se para a porta:
- Eu volto já.

Contempla a desconhecida, curioso.
- Minha Senhora, eu não a conheço.
- Não se preocupe. Não sou senhora nenhuma.
- Perdão. Menina.
- Deixe lá isso. O meu amigo por acaso não quer vir ali até ao Abel?
- Consigo?!
- Venha lá, que pago eu.
Pessoa olha com atenção a biqueira dos sapatos e murmura:
- Podia lá aceitar uma coisa dessas…
- Ó Fernando, não seja chato. Bora lá ao Abel.
- Bom, há ali uma pastelaria…
- Seja, pastelaria. Você já leu o poema do Cesariny, “Pastelaria”?
- Perdão?!
- Ah, esqueça. Ele só escreveu isso em ‘45.
- A menina é muito estranha.
- Eu?! Não sou eu que passo as noites acordada, a escrever encostada a uma cómoda.
Tornou a empalidecer. Desta vez aconchega os óculos no nariz e não diz nada. Fica com um ar pensativo.
- Sabe que eu também trabalho num quarto andar?
- Deveras? – parece realmente interessado. – A menina trabalha?
- Trabalho, pois.
- Eu admiro muitíssimo senhoras que trabalham.
- E eu, homens que escrevem.
- Eu sou… correspondente comercial.
- Pois. Eu também. Faço uma coisa parecida. Num quarto andar pombalino. Também comecei em part-time. Não acha uma coincidência incrível?
Ele parece cada vez mais acabrunhado.
- Bom, chegámos à sua pastelaria. Mas ainda acho que devíamos ter ido ao Abel. Não estou a ver o que é que quer daqui. Vai tomar o quê? Chá e torradas?
- Eu curto torradas e coisas assim.
- Fernando, não diga disparates, isso ainda nem sequer se inventou.
- Mas eu não disse nada… não fui eu.
- Luís, o que é que estás aqui a fazer?! Tu não entras nesta fantasia.
Luís olha em redor, encolhe os ombros e diz:
- Bom, então volto mais tarde.

2 comentários:

Sandra disse...

Uau! Adorei a tua "Pastelaria"!
Hás-de mostrar-me mais desse truque de culinária!
Sandra

Carla Morais disse...

Tão giro!! :)